Vozes do apoema

Amor pelo céu

Colombiana radicada no Brasil, a doutoranda Lucía Angel cresceu olhando para o universo que decidiu desvendar

Até os 17 anos, Lucía Angel morou em um sítio na região do município de Gigante, no interior da Colômbia (a cerca de 400 quilômetros da capital Bogotá). O local tem certificação Starlight, um reconhecimento internacional concedido a lugares com baixíssima poluição luminosa. “Conseguia ver milhões de estrelas quase todo dia. Dá para ver a Via Láctea, é muito lindo”, recorda. Seu pai, para dar conta da avalanche de perguntas da filha curiosa, começou a comprar livros sobre “o que eram aquelas coisas penduradas no céu”. Quando deixou o campo para cursar a graduação, estava em dúvida entre Filosofia e Física. “Meu amor pelo céu ganhou.”

Hoje, Lucía é doutoranda em Física na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e colaboradora do Apoema — o grupo de astrofísica de partículas que integra o consórcio internacional CTAO. Sua linha de pesquisa é a matéria escura, a componente invisível que representa 27% de tudo o que existe no universo, não emite luz, não interage com a radiação eletromagnética, mas cuja presença gravitacional molda a estrutura de galáxias inteiras.

A ponte entre a teoria e o experimento
Lucía se define como física fenomenológica, uma especialidade que ocupa o território entre a teoria pura e a experimentação. “Eu estudo os modelos e preciso ver se esses modelos estão somente escritos no papel ou se fazem parte da realidade”, explica. Na prática, isso significa construir descrições matemáticas de como a matéria escura poderia se comportar e confrontá-las com os dados publicados pelos grandes experimentos e consórcios ao redor do mundo — buscando os limites do que pode ou não existir.

Uma de suas ferramentas é o chamado Freeze-out, mecanismo que descreve como as partículas de matéria escura teriam sido produzidas no universo primordial. As candidatas mais estudadas nesse contexto são as WIMPs (partículas massivas de interação fraca), que estariam na chamada escala eletrofraca, a mesma faixa de energia em que foram descobertas as partículas do modelo padrão da física.

O problema é que os experimentos mais recentes estão progressivamente eliminando as WIMPs como candidatas viáveis. É aqui que o CTAO entra como última e mais poderosa esperança, pois os telescópios do consórcio irão acessar energias muito altas. O observatório terá capacidade de investigar sinais de matéria escura de até 200 TeV de energia — uma faixa de observacão sem precedentes. Se as WIMPs não aparecerem, pesquisadores terão que redirecionar o olhar para candidatos mais leves, linha que Lucía também já começa a explorar no doutorado.

A Via Láctea vista de uma zona rural no interior da Colômbia: o céu que encantou Lucía. Foto: Juan Herrera P./jornal El Tiempo

Uma carreira construída contra a corrente
O caminho da pesquisadora até a astrofísica de partículas não foi simples. Na graduação em Física na Universidad Surcolombiana, em Neiva, enfrentou um ambiente hostil. “O pessoal ainda é muito machista. Diziam que eu era só um rosto bonito e não sabiam o que eu estava fazendo ali”, relembra. Pensou em abandonar o curso mais de uma vez, mas valeu a pena insistir.

A virada veio durante a pandemia, quando assistiu a um curso on-line ministrado pelo professor Farinaldo Queiroz, da UFRN. Ainda sem dominar o português, acompanhou pelas legendas em inglês. “Eu me apaixonei pela área de astropartículas. Porque era tudo o que eu queria: não era só observacional, mas também tinha muita teoria. Então, para mim, esse foi o caminho.” Passou no processo seletivo do mestrado, garantiu bolsa e chegou ao Brasil em 2022, sob orientação de Farinaldo.

Hoje, parte do que a move é justamente o que tentou ser tirado dela. Lucía participa ativamente de iniciativas de divulgação científica e de estímulo a meninas na ciência — visitas a escolas e eventos abertos ao público. “Sei como é não se sentir pertencendo a um grupo por ser mulher”, diz. O resultado, conta ela com surpresa e satisfação, tem sido consistente: “A gente não discrimina gênero, mas sempre as que ficam até o final são as meninas”.

Lucía termina o doutorado em 2026 e planeja seguir com um pós-doutorado — no Brasil ou na Europa. O sonho é voltar à Colômbia, mas reconhece que, por enquanto, o incentivo à pesquisa por lá é escasso. Enquanto isso, segue construindo modelos e encorajando meninas a olhar para o céu com a mesma obstinação com que ela olhava, quando criança. E acreditando no impacto das futuras descobertas. “O que a gente faz em ciência, mesmo que não seja voltado, inicialmente, para um propósito da vida cotidiana, termina refletindo. Com o CTAO, chegaremos a uma era de precisão enorme e conseguiremos desvendar muitos mistérios”, avisa.

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