
Quando caminhava para a escola, em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, Márlon Pessanha passava diariamente por uma construção. Como toda criança curiosa, por diversas vezes adentrou e explorou a obra. A curiosidade virou encantamento quando, aos 12 anos, descobriu que ali estava nascendo a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). “Eu vi os pedaços sendo erguidos. Depois, entrei nessa universidade”, recorda.
Foi perto de casa, portanto, que ele se licenciou em Física e fez o mestrado em Ciências Naturais. O doutorado veio na USP, em Ensino de Ciências, com período sanduíche na Universitat Autònoma de Barcelona, quando despertou para inserir física moderna e contemporânea na educação básica. Hoje professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Márlon coordena o Núcleo de Formação de Professores e o Laboratório de Projetos e Atividades Didáticas (Lapadi). Entre 2019 e 2025, coordenou o Observatório Astronômico da mesma universidade.
Ele é um dos pesquisadores do Apoema que não olham para o céu, mas para a sala de aula — em parceria com a professora Nilva Lúcia Lombardi Sales, com quem idealizou o curso “Do macro ao micro na astronomia”, de formação continuada de professores da educação básica. A dupla é o braço da educação e da difusão científica do grupo. Sua pesquisa investiga como fazer com que o que é descoberto no projeto chegue às salas de aula.
O curso já foi oferecido em duas oportunidades, em 2024 e 2025. Foram 41 concluintes entre 64 inscritos, um alto índice para um conteúdo que oferta 80% do conteúdo remotamente — são dois encontros presenciais, um no início, outro de encerramento das atividades. Depois de uma pausa para reformulação, em 2026, uma nova edição está prevista para o próximo ano. O público-alvo são docentes de física (e áreas afins) do ensino médio da rede pública, mas a procura de professores do fundamental e de escolas privadas foi surpreendente. O conteúdo parte do que é visível e familiar (astronomia básica) e avança até os objetos extremos investigados pelo CTAO. Daí o nome do curso. “A gente fala do macro ao micro: partimos daquilo que se vê até chegar ao que não se vê”, explica Márlon.
O docente considera como efeito mais duradouro desse trabalho a formação de multiplicadores. Os cursistas não levam apenas conteúdo novo para suas disciplinas; eles carregam também uma postura diferente diante da ciência contemporânea, que se espalha pelos clubes de astronomia, pelas olimpíadas científicas, pelas conversas com os alunos que um dia vão escolher uma carreira. “Ninguém precisa ser cientista, mas é legal que essa informação chegue a quem deseja esse caminho”, comenta, lembrando da história de uma professora que aplicou conceitos do curso em sala de aula e a atividade final, de observação do céu, atraiu pessoas da comunidade.
O pesquisador também celebra que a iniciativa gera o que chama de engrenagem. “Houve casos de pessoas que resolveram fazer mestrado e doutorado. E tenho dois orientandos que vão pesquisar assuntos relacionados ao curso. Esse é o legado.”
O despertar do educador
O interesse de Márlon pela ciência veio da curiosidade pelo que é experimental, manual, com forte influência de dois programas de televisão da década de 1990: O Mundo de Beakman (produto norte-americano) e O Professor, estrelado pelo professor de física Sadao Mori. A escolha pela licenciatura em Física veio de um acontecimento simples, mas marcante. Em aula, colegas não estavam entendendo o conteúdo. Márlon pediu ao professor para tentar explicar. Explicou. Funcionou. “Naquele momento, eu senti que foi mesmo a decisão final.”
A astronomia, curiosamente, só entrou depois, na graduação, por influência de seu orientador, Marcelo de Oliveira Souza, um dos grandes pesquisadores do país na área de cosmologia. A migração para o estado de São Paulo, para o doutorado, aproxima Márlon da física de partículas — e é aí que o Apoema entra nessa história.