Vozes do apoema

Estamos fazendo ciência de ponta

Engenheiro mecânico Estevão Antolin conta como chegou à instrumentação astronômica e detalha o papel do Brasil na construção dos telescópios do CTAO

A trajetória de Estevão Antolin para dentro de um dos projetos científicos mais ambiciosos do mundo passou, como costuma acontecer nas melhores histórias, por uma combinação de paixão antiga e oportunidade bem aproveitada. Formado em engenharia mecânica pela Universidade de Franca, como bolsista do Prouni, ele sempre carregou um interesse paralelo pela astronomia. E foi justamente a tentativa de conciliar os dois que definiu sua carreira.

No trabalho de conclusão de curso, Estevão desenvolveu um mecanismo de apontamento para um radiotelescópio solar. “Percebi que conseguia aplicar engenharia na área em que tinha interesse”, recorda. A porta estava aberta.

Depois de alguns anos acumulando experiência em projetos industriais e, posteriormente, no Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Itajubá (MG) — onde trabalhou com espectrógrafos de alta resolução para telescópios ópticos no Brasil e no Chile —, Estevão soube de uma oportunidade no Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da USP. O projeto era fascinante: colaborar com o CTAO, o maior e mais sensível observatório de raios gama em construção no mundo.

O braço que sustenta tudo
Desde que chegou ao APOEMA, Estevão concentra boa parte de seu trabalho no gerenciamento da fabricação da CSS (Camera Support Structure), a estrutura de suporte da câmera do MST (Medium-Sized Telescope), o telescópio de porte médio do CTAO. São 16 metros de comprimento ligando a base óptica ao detector, um alicerce que deve ser ao mesmo tempo robusto para aguentar vento e peso, e preciso o suficiente para não comprometer um milímetro sequer do alinhamento focal.

Essa combinação de grandeza e delicadeza define bem o desafio da instrumentação científica de ponta. “Ajusta-se milimetricamente uma estrutura de duas toneladas e meia. São duas grandezas muito distintas”, explica Estevão. A solução encontrada para esse problema específico — o alinhamento fino do detector — rendeu ao projeto uma patente desenvolvida em conjunto entre o IFSC e a empresa brasileira Orbital Engenharia, de São José dos Campos, parceira do APOEMA desde os protótipos.

A fabricação das estruturas segue um caminho logístico igualmente complexo. As peças são produzidas no Brasil respeitando normas internacionais de qualidade: pré-montagem de verificação, depois desmontadas, pintadas com proteção especial (pela exposição permanente ao ar livre) e então alocadas em contêineres para serem enviadas por navio ao Chile e à Espanha. Cada peça é projetada para caber dentro de um contêiner padrão. “Não adianta fazer uma peça muito longa, tem que pensar nessa logística de envio.”

Renderização em 3D da estrutura que será fabricada. Foto: arquivo pessoal

O encaixe entre países
Gerenciar a fabricação de uma peça crítica é apenas parte do trabalho. A outra parte é garantir que ela, feita no Brasil, se encaixe perfeitamente às estruturas fabricadas na Alemanha, Espanha e Portugal. Em um consórcio internacional com grupos trabalhando em línguas e fusos horários diferentes, a margem para ruídos de comunicação é real — e um detalhe mal interpretado pode custar semanas de atraso.

A solução passa, portanto, pelos padrões internacionais de qualidade. “O meu erro tem que estar dentro da mesma tolerância que uma estrutura feita na Alemanha. Senão, elas não encaixam”, resume Estevão. Reuniões semanais, documentação detalhada e e-mails de alinhamento após cada encontro fazem parte da rotina para garantir esses padrões.

Em outubro de 2025, Estevão viajou à Alemanha para uma reunião de atualização do projeto. Foi a primeira vez que encontrou presencialmente colegas com quem trocava e-mails há meses. Lá, pôde também inspecionar visualmente a torre principal do telescópio, já fabricada pelo grupo alemão, e calibrar sua própria referência de qualidade.

Instalação da câmera no protótipo do MST, em Berlim. Foto: CTAO

Além da CSS
A atuação de Estevão no projeto não se limita à estrutura mecânica dos MSTs. Ele também colabora no desenvolvimento do interlock do LST (Large-Sized Telescope), o maior dos três tipos de telescópios do CTAO. O sistema funciona como uma espécie de fechadura inteligente que controla o acesso físico ao telescópio: sinaliza quando há um técnico no interior da estrutura e impede que o equipamento opere durante manutenções. Uma solução aparentemente simples, mas essencial para a segurança operacional de uma máquina de cem toneladas.

A terceira frente é a infraestrutura de rede e comunicação dos telescópios, a camada que permitirá que pesquisadores brasileiros acessem remotamente os dados coletados nos sítios do Chile e da Espanha. “Hoje, 90% do acesso aos grandes telescópios é remoto”, explica Estevão. E quanto maior a colaboração do Brasil nessa infraestrutura, maior o tempo de observação garantido ao grupo — e mais dados disponíveis para fazer ciência.

Instalação da câmera no protótipo do MST, em Berlim. Foto: CTAO

Legado
Para Estevão, a participação do Brasil em um projeto dessa envergadura vai além da contribuição imediata à astronomia. A tecnologia desenvolvida (e patenteada!) tem potencial de aplicação em outros campos da engenharia de precisão, da física médica à construção de grandes estruturas como pontes, navios e aeronaves. “Estamos fazendo ciência de ponta, trabalhando com desafios que normalmente a indústria nacional não tem”, observa. “Um dos principais retornos, a curto prazo mesmo, é o desenvolvimento de tecnologia que pode ficar ligada diretamente à nossa indústria.”

A expectativa mais imediata, porém, é outra: acompanhar pessoalmente a montagem dos primeiros MSTs no deserto do Atacama, prevista para o segundo semestre deste ano. Depois de gerenciar projetos, documentos, contratos e reuniões em três idiomas, ver a estrutura que ajudou a construir erguida sob o céu do Chile será, nas palavras do próprio engenheiro, a realização do projeto como um todo. “A minha principal expectativa é receber a primeira luz e, consequentemente, os dados”, finaliza, confessando estar ansioso.

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