Vozes do apoema

Propagação da ciência

Entre as jovens cientistas do projeto, doutoranda Andressa Colaço investiga a origem dos raios cósmicos

Há perguntas que a física ainda não consegue responder, como a origem dos raios cósmicos. Essas partículas subatômicas — prótons e núcleos ionizados que cruzam o universo a velocidades próximas à da luz — chegam à Terra em quantidade e energia que desafiam os modelos mais sofisticados da astrofísica. Entre as mentes dispostas a investigar esse mistério está Andressa Colaço.

Doutoranda em Física Teórica e Experimental pela USP de São Carlos, ela integra no APOEMA o grupo de fontes e propagação, que investiga onde e como essas partículas são aceleradas, e o que acontece com elas durante a longa viagem até a Terra. “Estudamos as origens e onde estão sendo aceleradas. E como vão perdendo energia ao atingir outras partículas. Então, acontece muita coisa que não é fácil explicar sem ter uma física bastante robusta e métodos computacionais”, detalha Andressa.

Toda vez que raios cósmicos atravessam um campo magnético, sua trajetória muda. E esse caminho tortuoso atrapalha a descoberta de sua origem. Isso torna a tarefa radicalmente diferente de observar, por exemplo, com um telescópio de luz: fótons viajam em linha reta e chegam apontando exatamente para a fonte.

A estratégia para contornar isso combina teoria, modelagem computacional e observações em múltiplos mensageiros astrofísicos. A pesquisadora constrói modelos físico-matemáticos para identificar quais objetos celestes têm as condições certas para acelerar partículas a energias tão extremas: campos magnéticos suficientemente intensos, estruturas suficientemente grandes. Em seguida, simula como as partículas se comportariam ao sair dessas fontes e como chegariam até os detectores — e compara com o que os experimentos de fato registram.

Entre as fontes mais promissoras estão os núcleos ativos de galáxias (AGNs), buracos negros supermassivos que, ao consumir matéria, disparam jatos de energia a distâncias colossais — e, no processo, podem acelerar raios cósmicos a energias inimagináveis. Durante a graduação em Física Computacional, Andressa já investigava um desses objetos: a radiogaláxia M87, também conhecida como Virgo A, situada a cerca de 55 milhões de anos-luz da Terra e uma das mais estudadas do céu.

Agora, no doutorado (como bolsista da Fapesp), ela expande o foco para as explosões de raios gama mais energéticas e luminosas do universo, associadas ao colapso de estrelas massivas ou à fusão de estrelas de nêutrons. São eventos imprevisíveis, que surgem sem aviso no céu e duram de segundos a dias. “Eles são fortes candidatos agora para tentar explicar as origens dos raios cósmicos”, conta. E é justamente aí que o CTAO entra nas perspectivas da pesquisadora: o observatório tem uma linha dedicada à detecção e monitoramento desses eventos, e os dados dos novos telescópios poderão, futuramente, cruzar com os modelos que ela está construindo.

Andressa: “É muito bom perceber o que outras pessoas não tinham percebido. Esse pico de alegria termina quando você encontra um erro no código. Resultados que achava que iam revolucionar tudo não estavam certos”

Astronomia desde sempre
A trajetória de Andressa até a astrofísica de partículas não foi exatamente uma surpresa, mas uma convergência natural de interesses que ela carrega desde cedo. Fez o ensino médio integrado ao curso técnico em Química, no Instituto Federal de Santa Catarina, e participou do clube de astronomia da escola. “Acho que a astronomia foi o meu interesse mais antigo”, revela a pesquisadora, que participa do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE), cumprindo etapas de preparação pedagógica e estágio supervisionada em docência.

A montanha-russa das descobertas
Perguntada sobre o que move a rotina de quem trabalha com o desconhecido, Andressa deu uma das respostas mais honestas e precisas sobre o cotidiano da pesquisa científica: “É muito bom perceber o que outras pessoas não tinham percebido. Esse pico de alegria termina quando você encontra um erro no código. Resultados que achava que iam revolucionar tudo não estavam certos”. O que fazer? Corrigir. E descobrir que ainda havia coisas novas. É nesse ciclo de planejar, investigar, descobrir, errar, corrigir e avançar que a ciência se move.

Compartilhe este conteúdo