O maior observatório de raios gama do mundo, o Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO), está ganhando forma e promete ser um destaque também na engenharia de precisão. Durante esta fase de construção dos telescópios, há uma fundamental participação brasileira: no consórcio internacional desde 2010, o projeto APOEMA colabora na estrutura dessas lentes gigantes.
O ano de 2026 marca a transição de estudos e testes de tecnologias para a fase de execução física. O sítio CTAO-Norte, na Espanha, onde já há um telescópio em funcionamento, terá mais três até o fim do ano. O CTAO-Sul, no Chile, está na fase de preparação do solo para receber os primeiros telescópios em breve. E é no país vizinho que entra, com mais ênfase, o toque verde-amarelo.

O APOEMA assumiu a responsabilidade por uma peça crítica, o CSS (Camera Support Structure), que sustenta a câmera do MST (Medium-Sized Telescope), o telescópio médio. São quatorze desse porte previstos no CTAO-Sul, em sua primeira fase. O hardware brasileiro passou por rigorosos testes no protótipo montado em Berlim, na Alemanha, próximo ao centro de gerenciamento de dados do CTAO, em Zeuthen.
Com 16 metros de comprimento, o CSS se conecta a um satélite de um peso estimado de 89 toneladas, que se move enquanto registra imagens. “Tem que ter uma precisão de apontamento e não pode ceder ao próprio peso. Por isso foi um projeto desenvolvido por muitos anos. Do ponto de vista internacional e da nossa participação, o protótipo foi um sucesso”, celebra o Prof. Dr. Luiz Vitor de Souza Filho, pesquisador responsável pelo projeto brasileiro.

O professor conta que o cronograma para colocar os sítios em pleno funcionamento atrasou por causa da pandemia de Covid-19 e da guerra na Ucrânia (país exportador de terras raras, matéria-prima essencial para a precisão ótica dos telescópios), mas destaca que a chancela da Comissão Europeia, no início de 2025, acelerou o processo. Reconhecido como ERIC (sigla em inglês para Consórcio Europeu de Infraestrutura de Pesquisa), o CTAO passou a ter estrutura jurídica mais robusta e isenção de impostos para receber recursos — a estimativa de investimento total é na casa dos 350 milhões de euros.
Vitor acompanhou de perto os bastidores desse fortalecimento do consórcio. Entre dezembro de 2021 e abril de 2026, ele ocupou o cargo de presidente do conselho da colaboração científica internacional do CTAO. “Foi uma experiência interessante. Aprendi muito sobre ciência, sobre o ser humano e sobre diplomacia, ao negociar com líderes de outros países. Acho que tive meu papel reconhecido nesse processo de transição para o início da construção dos telescópios”, afirma, aliviado, após o fim do mandato. “Ele vinha sendo prorrogado, mas pedi para não estenderem mais. Tudo tem seu tempo e já cumpri minha tarefa.”
No âmbito local, o pesquisador cita os dois grandes desafios vencidos pelo APOEMA: fomento a longo prazo e a parceria com a indústria. “É muito difícil manter recursos contínuos para um projeto que dura décadas. Felizmente, a FAPESP tem uma mentalidade de contemplar projetos assim, apesar das limitações. Já a indústria nacional é frágil nesse campo. Não é fácil encontrar empresas dispostas a participar de projetos científicos dessa envergadura, que envolvem incertezas e exigências. Os resultados da ciência que a gente vai produzir são de longuíssimo prazo, mas há um retorno direto na sociedade, pois o investimento está alcançando pessoas naquela produção”, detalha Souza Filho.
Quem aceitou a empreitada foi a empresa Orbital Engenharia, de São José dos Campos (SP). Parceira do APOEMA desde 2012, é responsável pela produção do CSS e coautora da patente do sistema de ajuste de cargas. “É uma empresa diferente, que não produz em série, mas poucas unidades, muito específicas, o que eu chamo de engenharia científica”, explica.
Os impactos da participação em uma colaboração internacional desse nível são imediatos em diversas frentes. “Em recursos humanos, todos que participam desse projeto entram em contato com o mais alto nível de exigência técnica e de controle. Um aprendizado que leva para outros campos, pois é um trabalho muito intelectual de produção de software e cálculos de risco”, conta Vitor, exemplificando que tem ex-alunos atuando na Amazon e no mercado financeiro.
Já o impacto na ciência ainda é tão incerto quanto fantástico. “O CTAO é um experimento de descoberta. Então, não é fácil antecipar o que ele vai medir. Mas se a gente conseguir entender a matéria escura, abre-se um conjunto imenso de possibilidades, se pensarmos que toda a tecnologia do século 20 foi feita porque entendemos o funcionamento do átomo”, projeta o pesquisador.