Quando criança, ela não ficava de olho no céu noturno ou devorava livros de astronomia. O que sempre moveu a Profa. Dra. Nilva Lúcia Lombardi Sales foi entender como a natureza funciona e, mais do que isso, compartilhar esse entendimento com outros. “Eu saí da física e fui para o ensino de física para isso”, diz a pesquisadora do Departamento Interdisciplinar de Formação Docente (DIFD) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Sua trajetória acadêmica é pautada pela missão de fazer o conhecimento chegar a mais pessoas.
O foco da atuação de Nilva é a formação de professores da educação básica. No Apoema, ela e o professor Márlon Pessanha são o braço pedagógico do projeto: a dupla estuda (e põe em prática) como a ciência produzida nos laboratórios e nos telescópios do CTAO pode adentrar as escolas.

O longo caminho até a sala de aula
Nilva fez o bacharelado em Física na Universidade de São Paulo (USP), pelo Instituto de Física de São Carlos (IFSC), o mestrado na mesma instituição, a princípio dedicada à pesquisa experimental. Mas algo não encaixava. “Eu gostava dos laboratórios, mas não gostava de ficar no laboratório produzindo os dados”, recorda. O que ela gostava mesmo era de estudar, discutir e falar sobre física para outras pessoas.
Nesse contexto, saiu da academia e foi dar aula no ensino médio. Ficou oito anos. Foi lá que a pesquisadora que ela viria a ser começou a tomar forma — não nos laboratórios, mas por uma frustração. “Eu imaginava que seria muito tranquilo falar dessa física mais atual na sala de aula, usando elementos da história da ciência, contextualizando. E eu falhava miseravelmente!”, relata, ponderando que os alunos até se interessavam, mas a aprendizagem não se efetivava.
Essa contradição entre o entusiasmo e a dificuldade de absorção do conteúdo foi o combustível que a levou ao doutorado em Ensino de Física. Desde então, sua pesquisa orbita uma pergunta central: por que os temas da física mais atual não chegam à sala de aula? E quando chegam, como chegam? A educadora recorre a Paulo Freire como referencial: o diálogo, a escuta, a construção coletiva do conhecimento. “Eu ouço o que esses professores trazem e ofereço para eles respostas construídas coletivamente. Não a imposição do que eu, como pesquisadora, penso que funciona.”
O curso e as surpresas
Em parceria com Márlon Pessanha, Nilva idealizou o curso de formação continuada “Do macro ao micro na astronomia”, voltado a professores do ensino médio. O desafio era duplo: traduzir uma ciência de fronteira para um público sem formação específica em astrofísica, mas sem simplificar a ponto de esvaziar o conteúdo.
A solução veio da parceria com os próprios pesquisadores do Apoema. “Encontramos parceiros fantásticos na equipe que aceitaram, nesse diálogo, construir esse conteúdo”, conta. O resultado foram vídeos curtos, textos complementares, simulações e propostas didáticas, um material que os cursistas puderam levar direto para suas salas de aula.
As duas edições do curso trouxeram boas surpresas. Na primeira, um grupo de dez professores de ciências do ensino fundamental (com formação em Biologia, não em Física) se inscreveu e se saiu bem. Na segunda, duas professoras do Fundamental 1 apresentaram, no encontro final, jogos e atividades que elas mesmas criaram ou adaptaram para as crianças.
O curso “Do macro ao micro” já foi ministrado em 2024 e 2025 e capacitou 41 multiplicadores. Depois de uma pausa para reformulação, em 2026, uma nova edição está prevista para o próximo ano.

Em boa companhia
Nilva fala com entusiasmo do lugar que ocupa no Apoema. Ela não analisa dados de telescópios, não modela partículas, não escreve código para redes neurais. O que ela faz é habitar a fronteira entre o laboratório e a sala de aula, e transformar o que acontece de um lado em possibilidade para o outro. “Eu sou muito feliz de estar dentro desse projeto. O que me encanta é ver o que eles estão fazendo e levar isso para outros professores em formação”, explica.
Essa proximidade permite à pesquisadora testemunhar um novo momento, a partir dos telescópios que estão sendo erguidos no deserto do Atacama e nas Ilhas Canárias. “Eles vão romper paradigmas daqui a pouco. E eu estou ali no meio, vivendo isso. Então, não quero ficar longe deles!”